Arquivo para outubro, 2010

A culpa (a caminho de casa)

Posted in Uncategorized on 13 de outubro de 2010 by multicolorido

Ela deixa sua casa como se abrisse mão do seu destino.

Carrega apenas  seus pertences  mais íntimos, pensando estar ao menos dessa vez  encarregada de ser mais simples.

Ela não sabe para onde vai e isso não a deixa preocupada pois já havia perdido o mais importante de sua vida e não hesitava em perder mais nada. E apesar de estar acostumada a sair assim, em busca de algo novo que a estimule a um delicado desfrutar da sua imaginação, ela saia de todo seu mundo habitual.

E enquanto a sabedoria clamava à esquina ela abandonava seus medos e se lançava no improvável.  Dessa vez era tudo diferente, sua vida de maneira forçada havia mudado e ela desejava não ser a mesma. 

Estava encontrando com a morte de si mesmo e dos outros a cada instante.  Sim, aqueles que ela mais havia amado  havia morrido de alguma forma.  Assim, achou que saindo de casa e tomando um ar fresco talvez achasse um motivo a mais para viver. Seria como comprimir mais ainda uma dor já abafada,  companheira dor de rotina.

 Mas não satisfeita de ser a culpa de si mesmo ela torna-se a culpa do outro. Sim, a culpa dele. Quando ela se encontra com ele, percebe que seu esforço foi em vão porque ele, apesar de seu estado pérfido, não estava disposto a mudar os ares de suas vida. O que ele desejava era alguém para completar seu descontentamento, sua pequenez. E não mais uma pessoa pra causar perturbações e saídas repentinas de seu casulo. Foi ai que ela notou que alguém inerte não poderia acompanhar alguém em processo de metamorfose. Foi assim que ela o deixa mais uma vez. Agora sem esperança de voltar, nem ela sabia que já  havia desistido dele há tempos. E apenas queria uma confirmação, um sinal de que poderia abandonar o sonho de ser um com ele. 

Em sua casa, até mesmo as paredes já haviam notado que ela precisava fugir. Ela tinha o apoio de alguns e a relutância de outros, mas o que importava realmente para ela naquele momento era a reflexão afim de digerir a sua nova condição de vida.

 Ela se foi, e demoraria um tempo para que notassem a sua falta. Dias, meses talvez. Porque sua estada, pesar de ser significante, não traria uma rápida absorção do seu estilo de vida algoz. Apenas na dor, sendo um pouco mais restritivo, na dor da falta é quando poderiam notar que já era tarde demais investir.  Mas mesmo se investissem já era tarde demais para tentar.

A sua hora já havia passado, tão rápido como num estralar de dedos.

  Ninguém poderia saber porque, mas ela sabia que tudo isso era culpa do seu jeito veloz e inconstante de ser. Sua vida havia mudado rápido demais, tão rápido que ela lutava para diminuir a distancia dos fatos de sua consciência. E é assim que ela se vai, mas na certeza de que retornará sendo um remédio para as suas dores, e o afago nos dias frios, socorro  para seu desamparo.