Arquivo para maio, 2011

O mito da reconstrução, ou o círculo do mundo.

Posted in Uncategorized on 4 de maio de 2011 by multicolorido

Em um mundo destruído por uma guerra entre as autoridades maiores, Yeshurhá se veste com o que encontrou pela desolada e antiga cidade de Èsepê. E meio a ferrugens e destroços, encontra um pano que um dia foi branco e encobre seu corpo nu, com as marcas da guerra. A selvagem floresta de pedras tornou-se um grande túmulo onde os últimos sobreviventes enterravam seus familiares. Èsepê era uma pequena cidade se comparada ao mundo espiritual e grande se comparada às cidades de hoje, porém num mundo anterior ao nosso, de muitas formas semelhantes que deram a origem ao humano de hoje. Não havia nações diferentes, apenas cidade próximas da grande Èsepê.
A cidade era enorme – seu território alcançava aproximadamente 500 quilômetros quadrados de grandes construções humanas e rodeados por extensões verdes, rochedos, planícies e desertos, lugares desolados e de difícil acesso. Mas agora pouco se restou da grande cidade Èsepê, eram apenas destroços daquela história trágica. O único lugar que se manteve intacto foi no círculo da árvore da vida, que antes era como uma árvore comum, mas na cidade cinzenta tornou-se notável.
Dentre corpos espalhados, estava ela, Shuya, o primeiro e único amor de Yeshurhá, a quem decidiu fazer a promessa de permanecer vivo ao criar um pacto com as autoridades maiores, a quem detinha o poder de dar vida aos homens. As autoridades eram divindades quem foi dado poder por Ashalan (Rainha, mãe fundadora) de estabelecer governo sobre as cidades, de forma presente, porém notável apenas àqueles que possuíam dotes espirituais. Mesmo estes poucos humanos bem dotados, era difícil o acesso a este mundo invisível das autoridades. O que eles conseguiam alcançar com seus sonhos, visões e possessões, tornava uma pequena ou uma meia-verdade em distantes ecos da realidade espiritual. Por mais que estes bem dotados, espiritualmente falando, fossem ótimos profetas ou líderes espirituais, o que eles alcançavam era uma visão pequena e obscura da grande e profunda realidade do mundo espiritual das autoridades.
E lá estava ele, Yeshurhá, distante de ser um profeta, transvestido de arrependimento por não ter alcançado a graça dessas autoridades a fim de também de conceder a sua amada o fôlego da vida naquela sua nova jornada que ele mal sabia por onde começar. Entre os destroços, encontrava entes queridos e sua dor foi sufocante. Desejava ao menos ter alguém do seu lado para se enveredar pelas ruínas e encontrar um sentido para seu caminhar. Mal sabia ele que aqueles corpos eram meros detritos humanos cujo valor era pequeno em vista do seu inestimável homem interior, estes todos, que após a morte na guerra entre as autoridades, foram levados à mundos próximos destinados pelas escolhas pessoais terrestres.
Em Èsepê os sobreviventes eram por volta de míseros 7 em número total, apenas aqueles que antes da sua morte se lembraram das autoridades e clamaram pela continuidade da raça humana. Estes foram separados dos demais por uma escolha anterior de Ashalan e destinados a reconstrução do mundo novo.
Eles foram ouvidos para dar continuidade e reunidos em Èsepê pelas autoridades. Nenhum deles havia sido um líder espiritual, profeta, ou coisa parecida. Mas como todo humano, não poderia viver sem essa realidade invisível, por mais que nunca havia alcançado algo palpável dela, ao menos cognoscível. Então Ashalan se comoveu da falta de intimidade dos humanos para com as autoridades, mas principalmente a falta de intimidade com Ela. O mundo que Ela havia criado se tornou fruto da ganância de um terço das autoridades e havia se tornado desolado, pela guerra entre todas as autoridades. Os humanos então estavam tão distantes que mal conseguiam enxergar e entender as causas da desolação.
Yeshurhá era um deles, que antes tinha uma vida tranqüila, mas que agora havia de tornar-se um guerreiro para reconstruir sua vida nos destroços. Era um novo começar do terceiro Adão, que se estabeleceria em Èsepê com uma memória e resquícios do velho mundo. Mas Yeshurhá precisava ser reconstruído, afim de não apegar-se ao passado como escape de suas dores ou como prazeres menores em meio a luta, mas viver o presente com mais força e garra na reconstrução do seu “eu”. Era necessária uma seleção de fatos em sua memória que davam força, assim como a eliminação de fatos que o tornava um saudosista deprimido.
Na saga de Yeshurhá pela reconstrução de Èsepê, do seu “eu”, na luta pelo esquecimento de Shuya e de seus familiares enterrados por ele, continuava dia após dia caminhando pela cidade Èsepê. Em sua caminhada, Yeshurhá encontra com os outros 6 sobreviventes na árvore da vida, que por algum motivo foram atraídos até lá, como uma coincidência. O primeiro contato humano foi recebido com um misto de estranhamento e alívio. Mas logo foram surpreendidos pela descida triunfal de Ashalan, seu poder podia ser sentido nos mundos próximos. Aterrorizados, pensaram que seria fulminados pelos grandes olhos de fogo da grande-mãe. Então eles puderam ouvir sua voz como de muitas águas dizer: – “dancem pela reconstrução de Èsepê. Vocês são meus filhos amados a quem eu os destinei para gerarem uma nação, cuja lei desenharei em seus corações para fazermos juntos o novo mundo baseado na nossa intimidade”.
Yeshurhá, tímido e desengonçado, começou a movimentar-se em passos leves e sem ritmos. Mas aquela era sua dança para Ashalan, sem saber o que viria pela frente. Os outros seis também se movimentavam, alguns pareciam já ter uma relação íntima coma dança. Yeshurhá pôde ter então naquele momento, o êxtase e a alegria que nem mesmo antes da destruição de Èsepê ele experimentou. Suas lembranças foram se dissolvendo no prazer que o envolvia na dança, assim, tornava-se mais solto em seus movimentos e brotava em seu ser um desejo de se conhecer Ashalan e de se relacionar com Ela. Através de passos de samba, jazz, zouk, kuduro, entre outros, foram gerando juntos, os 7 humanos, Ashalan, e os dois terços que restaram das autoridades, o novo mundo. Por fim, os 7 humanos foram sacrificados, mortos pelo fogo consumidor de Ashalan afim de serem elevados a posição das autoridades. Ashalan assentou-os em sua mesa, ao lado de seu trono em seu tabernáculo, dando a eles uma vida de êxtase que nunca acaba. No novo mundo foi gerado também em meio a danças, o quarto Adão que habitava em redor da árvore da vida e conversava diariamente com Ashalan, os 7 humanos ascendidos e as autoridades.