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Memórias da infância

Posted in atletismo, educação, família, relacionamento with tags , , , , , , , on 27 de junho de 2011 by multicolorido

 (1988- 2001)

Carnaval de 1988. Lá fora, um som alegre que durou a noite toda. Dentro da maternidade, um parto cesariano difícil se realizava. Em meio a sambas, fanfarras e marchinhas, ouviram meu primeiro choro. Foi na hora certa, disse o médico, ao explicar que se eu tivesse nascido de parto normal e um tempo depois, não teria sobrevivido com duas voltas do cordão umbilical presos ao pescoço. Minha mãe, teimosa, decidiu ter mais uma filha mesmo com a reprovação do médico, que já havia dito que seria uma gravidez de risco caso ocorresse. Ela era cardiopata e um ano anterior teve um aborto espontâneo, o que complicaria bastante minha gestação e nascimento.

Mas como ela fala, era pra eu nascer mesmo. Fui amamentada em apenas seis meses, e com nove minha mãe foi para São Paulo fazer uma cirurgia para troca de válvula mitral. Enquanto durava sua recuperação, fiquei com minha tia Marisa, irmã da minha mãe. Com minha tia Marisa e minha mãe dei meus primeiros passos. Passos que depois de muitas quedas me deram uma base firme para continuar minha vida.

Desde pequena sempre fui muito ativa e inquieta. Gostava de subir todos os muros, janelas e árvores que encontrava. Aprendi a andar de bicicleta muito rápido, gostava de correr e brincar muito na rua. Mas meu brinquedo favorito era a boneca Barbie. Cada dia uma situação diferente eu inventada com minha colega Fabiana. Profissões, lugares e estilos de vida entravam em nossas brincadeiras e em nossa imaginação.

Morava duas ruas acima da feira do P.Sul, Ceilandia. Meus pais tinham uma banca de roupa, e todo final de semana trabalhavam lá. Minha mãe era concursada do Ministério da Saúde, e trabalhava durante a semana no Hospital Universitário de Brasília- HuB, e meu pai, é policial militar. Eu e meu irmão, três anos mais velho, tínhamos que ficar em casa para não atrapalhar as vendas, mas sempre que podia eu corria para a feira. Gostava de ver o movimento, as pessoas gritando e a variedade de coisas vendidas naquele local. Era galinha caipira, mandioca, churrasco, milho verde, roupas de todo tipo, frutas e verduras. Geralmente eu não podia ficar na feira, só passava por ela, mas sempre tinha alguma coisa interessante para ver.

Enquanto meus pais trabalhavam, eu ficava no Jardim de Infância da 404 Norte. Acordava cedo, 7 horas estava na parada de ônibus. Minha escola era excelente, com cadeiras, mesas e banheiros adaptados para criança. Mas para mim tudo era gingante: o parque, o pátio, as salas e os jardins. Não me recordo o que e como aprendi no jardim de infância, mas o que me lembro bem é que sempre tinha muitas brincadeiras.

Minha mãe fazia curso de salgados e pães no SESC, em Taguatinga. Muitas vezes eu e meu irmão a acompanhávamos em seu curso. Eu observava de longe minha mãe juntar ingredientes, bater a massa do pão e fazer os molhos. Aos poucos aprendia e quando chegava em casa sempre tinha uma experiência nova! Para mim, o peso era medido em copos, em colheres, em xícaras e em potes da cozinha. Não importavam as gramas, mal sabia a diferença entre mililitro e miligrama. Sabia que para fazer a receita do pão eram necessários alguns ovos, algumas colheres de manteiga, alguns copos de leite e um pacote de farinha de trigo. Para mim isso bastava. Inicialmente ajudava a minha mãe a enrolar as coxinhas, abrir a massa, separar os salgados. Mas com o tempo, eu já separava a medida do leite, a medida da farinha, a quantidade certa de ovos, o óleo que seria usado, dente outros. Me divertia enquanto ajudava minha mãe a fazer salgados e pães. Ela sempre me fez enxergar a vida com olhos de simplicidade.

Além de me ensinar a fazer pães e salgados, minha mãe me ensinou muito além, e que talvez não caberia neste memorial. No que se refere a educação, desde pequena ela me influenciou muito. Cada pessoa que passava na rua vendendo livros ela comprava. Dicionários, enciclopédias, manuais, livros didáticos, literatura clássica, contos, literatura infantil… Ela comprava e formava uma espécie de biblioteca em nossa casa. Para ela não importava se iríamos ler agora ou depois, mas o fato de tê-los disponíveis e ensinar para a gente que a leitura era importante para nossa vida era que realmente importava. E dava certo, pois eu e meu irmãos nos apegávamos aqueles livros, e mesmo sem saber ler as palavras, líamos as figuras. E com o passar do tempo, íamos aprendendo a ler as palavras e então podíamos compreender o que estava escrito nos livros.

Meu ensino fundamental I, cursei na Escola Classe 405 norte. Meus pais decidiram se mudar para São Sebastião, apesar da minha mãe achar que nós estávamos regredindo. Nossa casa agora era maior mas ainda estava sendo erguida. Era terra, poeira e material de construção para todos os lados. Como se tivéssemos começado do zero novamente. Nessa época, comecei a fazer atletismo com meu pai.

A pista de atletismo em que eu treinava não era oficial, de 400 metros, então, uma vez por mês tínhamos que refazer as medidas para o treinamento. Meu pai levava a trena e me ensinava o que fazer para ajudá-lo. Eu segurava e desenrolava a trena, enquanto ele dizia os metros e conferia se a medida estava correta. Depois de saber as medidas exatas do comprimento total da pista, medíamos também as retas, curvas e o campo de futebol que havia no meio dela. Todas as marcações seriam utilizadas para os treinamentos. Ao trabalhar com medidas de comprimento e tempo, sabia exatamente qual seria um tempo bom para correr nas retas de 100 metros, para os 200 metros e 400 metros. E todo mês medíamos com o carro e ainda corríamos distâncias mais longas na rua, de 1.000 a 3.000 metros.

Meu pai não era formado em Educação Física, mas tinha um conhecimento na área. Quando morávamos no P. Sul, eu e meu irmão pertencíamos a um clube e tínhamos treinador. Mas em São Sebastião, as coisas mudaram bastante. Além de readaptarmos os locais de treinamento, tínhamos que treinar sozinhos. Mas isso durou pouco tempo, pois as crianças da rua nos viam correndo e se interessavam pela corrida. Meu pai conversava com elas e as influenciavam para a prática desportiva. Em pouco tempo de 10 a 15 crianças se reuniam todos os dias para serem treinados pelo meu pai. Os treinamentos eram levados a sério, e participávamos quase todo mês de corridas mirins. Era uma festa! Medalhas, troféus e bicicletas ganhávamos nas competições e ninguém saia de mãos vazias.

Não tínhamos apoio algum, mas nos esforçávamos muito para sermos campeões. E com a turma grande treinando, tudo era mais divertido. Com 9 anos ganhei meu primeiro cronômetro. O tempo que antes era monitorado pelo meu pai, agora é conferido por mim. Ele anotava tudo em seu caderno e mostrava-nos se nossos tempos estavam melhores.

Eu tinha muitos resultados bons e na maioria das corridas mirins que participava, ganhava e subia ao pódio. Com tantas fotos, troféus e bons resultados, meu pai montou um portfólio para tentar uma bolsa de estudos em uma escola particular. Tive que estudar muito para tentar passar nas provas do Colégio Militar e Santa Rosa. Não passei no Colégio Militar e não me deram bolsa de estudos no colégio Santa Rosa. Meu pai então foi a Escola Presbiteriana e Colégio Mackenzie. Gostaram do meu currículo, passei na prova e ganhei 100% na bolsa de estudos.